Expulse aquele amigo exibicionista de sua vida

Não costumo citar uma obra ou autor de maneira despropositada, incluo-me entre os que, em maior ou menor medida, respeitam referências pessoais ou, como até prefiro, pessoalíssimas.

Paulo Francis é uma dessas pastas que sempre exibo com orgulho e entusiasmo — jornalisticamente atribuo, inclusive, título de nobreza ao polemista que perdera a vida em sua Nova Iorque, no já longínquo ano de 1997.

Aprendi a gostar do estilo de Paulo Francis por sua verve corrosiva, pronta para o combate, e pelo acervo interminável de cultura elitista (este, o único protótipo cultural que agrada-me completamente). Como sempre afirmo, trata-se de um padrão de colunismo que o Brasil já não tem.

Nos últimos dias, reli a coleção “Diário da Corte”, lançada pela editora Três Estrelas, e ali pude averiguar como certos textos recaem com força brutal em dias como os atuais. “Não quero saber de sua vida”, coluna crua sobre a necessidade que a sociedade tem de expor — sem discrição — sua menor intimidade, o aristocrático Francis (sob sua própria definição, é quando existe “limitação rigorosa de simpatia com o próximo”) atacava a falta de vergonha na cara de tipos indiscretos, vendedores de segredos, cultores despudorados da língua nervosa.

Este artigo, senhoras e senhores, foi publicado na Folha de S. Paulo em maio de 1978. Imaginem a reação do grande Francis em pleno século 21, ano 2020, diante do Facebook e adjacentes.
A privacidade (essa riqueza tão plena) hoje é negociada por qualquer gratuidade — e os mercadores sorriem, como tolos felizes. Fotos, vídeos, áudios, tudo é compartilhado com a maior boa vontade.

Não compreendo a razão por trás de uma reunião familiar ganhar o mundo através das redes sociais. Ou quando textos de foro conjugal são redigidos em pleno trânsito virtual.

Assumo, sem medo de represálias: não suporto essa tipificação infame. Lanço, aqui, uma campanha de ruptura social em nome da “discrição sob medida suprema”. Não tolere seu amiguinho adepto da cultura do “conta tudo”. Diga não. Expulse-o de sua casa, bairro, Facebook ou sauna. Preserve amizade que fale sobre John Updike ou tensão política americana. A vida não será mais a mesma — será um pouquinho melhor.

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