O lance dos mestres e uma diva inigualável

Gosto de escrever sobre mestres — não titubeiem, a firma agradece — e sobre suas construções benevolentes dentro do meu universo cultural. Lembro-me, constantemente, do gênio Ivan Lessa (e alguém em sã consciência consegue esquecê-lo?). Quantos discos citados e autores varridos para o centro da sala, da minha sala fervilhante. Em 2012, quando de sua desaparição, lá estava meu sentimento à sua inteira homenagem. Justa, claro. Ella Fitzgerald e Billy Eckstine, presentes, solícitos.

Ainda essa semana, numa daquelas aquisições tardias  — juro, fiz o que pude durante anos, mas a problemática estava mesmo do outro lado, ou seja, nas escassas edições do mercado editorial –, logrei a última peça de sua obra que evitava-me cruelmente: “O luar e a rainha”, livro que reúne colunas publicadas no site da BBC. De novo, gênio dos gênios. Por que tão esquecido por aqui? Arrisco-me numa explicação simples: porque o Brasil é uma terra esquecida em termos de cultura profunda.

Seguindo regras próprias da maestria, e não são muitos os que gozam dessa proeza, encontra-se o apresentador radial Anselmo Marini. Figura conhecida em Buenos Aires, Marini é o que podemos chamar de “enciclopédia do tango”. Seu programa “Desde el Alma”, na rádio “La 2×4”, emissora exclusivamente voltada ao ritmo portenho, está entre minhas audições mais que prediletas. Através dele, estudo parte da história argentina de meados do século 20, tendo como pano de fundo a época dourada do gênero.

Como Ivan costumava fazer em suas crônicas musicais, Marini oferece-me (cabe, sim, o tom pessoal, íntimo, ora bolas!) nomes muitas vezes raros da história tangueira. Logicamente, também passam pelo seu escrutínio marcas consagradas da música popular argentina. Recentemente, numa revisão das vozes femininas mais rutilantes, o que é bastante comum dentro da estrutura do programa, tive o enorme privilégio de conhecer a voz feminina do tango que jamais esquecerei: Susy Leiva. A voz. A alma do estilo. A força única que emociona em “Frente al mar”.

Até então, divas como Libertad Lamarque, Susana Rinaldi, Tita Merello e Amelita Baltar dominavam meu altar das predileções femininas. Morta no já longínquo ano de 1966, Leiva agora é a minha número um. Aliás, estou a falar da melhor cantora de tango da atualidade.

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